Obra de Restauração do Telhado do Palácio Amarelo da Câmara Municipal de Petrópolis
- Introdução:
Em 2019, uma iniciativa em conjunto entre a Câmara Municipal de Petrópolis - CMP e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ foi idealizada para a criação de um projeto de gestão e restauração do Palácio Amarelo. A partir disto foi firmada uma parceria entre as duas instituições, a fim de diagnosticar as principais potencialidades e fragilidades da edificação e propor um plano eficiente de recuperação e gerenciamento do monumento.
O projeto iniciou, oficialmente, em agosto de 2020 com a assinatura do Acordo de Cooperação Técnica entre a Câmara Municipal de Petrópolis e a UERJ (ID: 2273428).
O projeto foi denominado Palácio Amarelo: Plano de Gestão e Preservação e foi desenvolvido de modo sistêmico e integral, a partir de três eixos de ações: Eixo 1 – Infraestrutura, Eixo 2 - Comunicação e Educação e Eixo 3 – Fortalecimento Institucional.
2. Diagnóstico:
De acordo com os estudos realizados pela equipe, a construção do Palácio Amarelo compreendeu três fases. A primeira, ainda no século XIX, na fase residencial com a construção por Mayrink e posterior compra pelo Barão de Guaraciaba.
Pouco se tem registrado sobre o projeto original do solar de Mayrink/Guaraciaba. Não se tem a planta do edifício anterior e não existe nos arquivos municipais o que foi conservado do prédio antigo.
Mas sabe-se o que foi acrescentado com as obras de adaptação para uso da Câmara Municipal. Assim, faz-se uma leitura de um primeiro momento do edifício sem as cúpulas, com uma fachada mais colonial, em 3 pavimentos e sem claraboias no telhado.

A segunda fase é a partir de 1894 com a compra do solar pela municipalidade, quando foram feitas diversas adaptações para a ocupação da Câmara.
Na ocasião, o palácio teve acrescido dois torreões laterais coroados com cúpulas, que não eram vedadas como hoje, servindo naquele período como varandas, conforme pode ser observado na imagem abaixo do acervo do Museu Imperial. Foi nesta fase, a aplicação das claraboias, que podem ser vistas no esquema produzido pela equipe do projeto Palácio Amarelo.



Fotografia mostrando vista aérea do Palácio Amarelo onde, atualmente, funciona a Câmara Municipal de Petrópolis. Veem-se, na frente do palácio, a praça Visconde de Mauá e a atual rua da Imperatriz. Como pode ser observado nesta imagem aérea que consta no acervo do Museu Imperial, o edifício em 1922, data de registro da imagem, ainda não estava ladeado pelos anexos. A implementação desses espaços é posterior a esta imagem.
Já a terceira fase, ocorre a partir da década de 1950, com a construção de acréscimos nas laterais do edifício.
Em 1955, por exemplo, foi feita a anexação do que era gabinete do Prefeito na lateral direita do prédio. Já em 1998, foram realizadas obras de infraestrutura, principalmente a recuperação dos telhados, recuperação das fachadas, reforma da rede elétrica, implantação de nova rede de telefonia, junto ao acréscimo da cantina nos fundos e de sanitários.

Em 2000, foram feitas no segundo pavimento a recuperação de forros e pisos, a recuperação arquitetônica e artística das salas anexas ao plenário, onde estão fixadas as cúpulas, além da construção de 10 gabinetes. No terceiro pavimento foi feito o Espaço Vereador Latuf Gibrail que abriga os cinco gabinetes da Mesa Diretora da Câmara Municipal, junto à recuperação de forros e pisos.
Em 2006, foi feita a restauração das paredes, quando na ocasião foram encontradas as tintas originais e elementos artísticos de grande valor. Em 2012, na última grande reforma, antes da parceria da Câmara com a UERJ, foi restaurado o Salão Hermogênio Silva, o hall central da Câmara e outras obras de arte.
Percebe-se que ao longo de sua ocupação, o Palácio Amarelo sofreu obras de requalificação, que abrangeram de parcial a quase globalidade do edifício, sendo possível inferir que houve intervenções nas coberturas. O projeto original, que seria adaptação, passou, em verdade, a ser projeto novo, o qual, sob o ponto de vista formal, corresponde à transição do neoclassicismo para o ecletismo.
O primeiro pavimento é em alvenaria de pedra; o segundo tem a frente em tijolos e os fundos em pau-a-pique. O madeiramento do forro e do telhado é de pinho de riga. Alguns pisos são em madeira e as escadas nobres são mármore.
O telhado tem área livre de aproximadamente 600m² e obliquo de 700m². O projeto se propôs a recuperar os telhados da edificação, mantendo suas características intrínsecas, ante a deterioração provocada pelo desgaste natural, junto a decorrência da ação do tempo, pela ação do homem e pela vazão inadequada.
Os telhados são constituídos de estrutura de madeira, com cobertura em telha plana de barro cozido, do tipo francesa. A cobertura é composta por 14 telhados de duas, quatro e águas múltiplas, calhas entre telhados e periféricas, abrangendo quase todo o perímetro da edificação, conforme ilustra o desenho.

Foram verificadas inúmeras anomalias resultantes de intervenções anteriores inadequadas e de falta de manutenção. Por meio de uma minuciosa observação, concluiu-se que existiu a deterioração por desgaste natural e por ação provocada.
Em 2021 foi iniciada uma sequência de visitas técnicas. O estado de conservação do edifício foi analisado e os pontos que precisavam de atenção foram identificados, sendo considerado o telhado como prioridade e precisando de reparos com rapidez.
Após as visitas, a equipe do projeto Palácio Amarelo: Plano de Ação e Preservação realizou uma série de reuniões para discutir como deveria ser a sequência de trabalho no prédio.
Foi constatado o avançado estado de deterioração da cobertura do Palácio Amarelo, que comprometia a integridade estrutural do prédio e o pleno funcionamento das atividades legislativas ali desenvolvidas. As fortes chuvas que assolaram a região em fevereiro e março de 2022 agravaram a situação, evidenciando a urgência de uma intervenção qualificada.
No dia 24 de março de 2022, o edifício do Palácio Amarelo passou por uma vistoria do escritório técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Thiago Fonseca, chefe do Escritório Técnico do IPHAN em Petrópolis, ficou responsável pela vistoria, acompanhado pela professora da UERJ Maria das Graças, dos arquitetos Filipe Graciano, Jorge Campana e Luciana Pappacena e pelas estagiárias Sabrina Luise e Alexia Cantreva, além de representantes da equipe técnica da Câmara.
O projeto emergencial do telhado proposto pela equipe foi aprovado pelo IPHAN.
Foi elaborado um caderno de propostas para o projeto do telhado, no qual foram apontadas as principais necessidades de intervenção, apresentando também registros fotográficos e pesquisas históricas. Além disso, os serviços de maior importância para a execução da obra foram apontados.
Identificou-se que apesar de grande parte do conjunto ser “original”, sua estrutura e seus revestimentos configuram técnicas, materiais e usos distintos de diferentes momentos. Os telhados foram subdivididos em trechos, conforme indicado figura anterior.
As peças que estruturam o telhado são de madeira de lei e, em grande parte, de pinho de riga. É composta de tesouras de penudral, terças, frechais, meeiruas, caibros e ripas.
Há evidências de intervenções, em especial nas tesouras principais dos telhados T-6. Aparentemente não havia risco de ruína, haja visto os reforços efetuados em estrutura metálica.
A estrutura do telhado se apoia sobre paredes e vigas de madeira, que ao mesmo tempo, suportam os forros e o assoalho de tábuas logo abaixo dos telhados, nos locais onde não existe laje. No momento do diagnóstico, as telhas de barro apresentavam desenvolvimento de fungos.
Segundo análises precisas, as calhas, os rufos e as descidas de águas pluviais eram os itens mais deteriorados dos acessórios do telhado. As calhas eram de chapa de aço galvanizado com processo visível de corrosão, o que indica a intervenção inadequada. Isto posto, foi programada a substituição de todo o sistema por peças mais duráveis e de fácil trabalhabilidade.
Constatou-se, então, que as condições das descidas de águas pluviais, proveniente das calhas, são em materiais e formatos inadequados, comprometendo esteticamente as fachadas e com geometria que facilita obstruções.
Durante as visitas técnicas foi verificado que as infiltrações da edificação têm origens distintas como infiltrações permanentes no piso da cobertura, devido haver algumas avarias (fissuras) nos pisos como calhas e lajes, resultando no descolamento da manta.
Também apresentou descolamento de telhas, rufos em chapa apresentando ferrugens e uma grande quantidade de telhas quebradas, causando assim a deterioração dos madeiramentos da estrutura do telhado.
Uma vez que, essas infiltrações ocorriam praticamente durante todo o ano, em dias de grande incidência de chuva, momentos em que os elementos envolvidos, encontravam-se em estado precário de conservação, as superfícies da edificação tornaram-se, consideravelmente, mais suscetíveis a absorção de água, favorecendo, portanto, o fenômeno da infiltração.
As infiltrações causadas pela ação das chuvas têm sua intensidade associadas à falta de desempenho da impermeabilização, na sua função de impermeabilidade. As infiltrações causadas pelas avarias em telhados podem ser observadas na laje. Observa-se nas faces das paredes aparentes manifestações patológicas de formação de manchas de umidade com aparecimento de bolor.
Em resumo:
O Palácio Amarelo possui, entre seus diversos itens construtivos, uma cobertura que se compõem de diversos pequenos telhados. Apresenta também duas cúpulas que perfazem o complemento estilístico da fachada.
O conjunto dos telhados da cobertura foram alvo de acréscimos em diversas épocas, e se apresentavam com seus atributos principais em situação de incapacidade de captar e destinar adequadamente as águas de chuvas.
Importante destacar que as águas pluviais na cidade de Petrópolis são carregadas para as galerias e a seguir para o rio que atravessa a cidade. Ora, esta característica remete ao fato que, em grandes chuvas na região, exista a possibilidade de retorno destas águas e uma possível inundação dos forros. Este tipo de evento impede o escoamento das galerias e, consequentemente, dos tubos de queda.
Este fato implica a implantação de um sistema de dispersão destas águas, para que quando da inoperância eventual do sistema de captação, face ao grande volume de chuvas, estas águas sejam direcionadas para fora do sistema de captação, e impeçam sua infiltração nos forros.
Foi observado também que os telhados apresentam pouca inclinação e calhas com dimensões aquém dos padrões necessários para a adequada captação. Outra dúvida levantada no diagnóstico era se os tubos de captação estavam adequadamente interligados e suas ligações perfeitamente interligadas a caixas de coleta e galeria.
O projeto foi concluído na certeza de que o conjunto da cobertura deveria ser completamente redimensionado para que as questões estruturais sejam adequadamente resolvidas. Os referidos procedimentos se traduziam em uma reforma completa, em todos os itens construtivos: remoção da cobertura em telhas cerâmicas, desmontagem da estrutura do telhado nos trechos deficientes, substituição dos elementos de madeira deteriorados, substituição das calhas e instalação de novo sistema de coleta, tubos de queda e captação.
Foi proposto que as calhas a serem instaladas no sistema deveriam ser em cobre e ser implantadas sobre berços executados em compensado naval resinado a perfazer seus novos dimensionamentos. Uma vez refeita a estrutura e o posicionamento das calhas, os mantos de cobertura deveriam ser reposicionados e devidamente arrematados.
Outro item de grande relevância são as duas cúpulas que apresentam dificuldades de arremates em seus encontros com o telhado e com os trechos de lajes adjacentes. Este ponto gera uma dificuldade inerente a natureza dos elementos e consequentemente, um ponto de infiltrações recorrentes.
A expectativa era que todos os encontros de lajes, telhados e captações nestes pontos fossem redimensionados e um sistema de impermeabilização fosse implantado de forma a proteger os trechos inferiores a base das cúpulas, sendo fundamental que este tratamento seja interligado ao sistema de captação das águas pluviais.
Para o restauro do telhado, foi proposta a recuperação dos telhados da edificação mantendo suas características intrínsecas, como seriam anteriormente à deterioração provocada pelo desgaste natural e à decorrência da ação do tempo, seja pela ação do homem, seja pela vazão inadequada.
Como parte das considerações finais acerca do conjunto da cobertura, a equipe chegou à conclusão de que os telhados foram alvo de acréscimos durante diferentes épocas, e se apresentava com seus atributos principais em situação de incapacidade de captar e destinar adequadamente as águas de chuvas. Sendo assim, o conjunto da cobertura foi redimensionado para que as questões estruturais fossem devidamente resolvidas.
O projeto técnico detalhado para a restauração foi desenvolvido por uma equipe multidisciplinar da UERJ, composta por docentes e discentes do curso de Arquitetura e Urbanismo, em estreita colaboração com a equipe técnica da Câmara Municipal. Os responsáveis técnicos pelo projeto foram a arquiteta Luciana Pappacena e o engenheiro Jorge Campana, além da participação dos estagiários da CMP e UERJ.
O trabalho incluiu um diagnóstico rigoroso, que contemplou o levantamento histórico da edificação, a documentação fotográfica e gráfica da estrutura da cobertura, o reconhecimento das diferentes fases construtivas do edifício e a análise detalhada das patologias presentes.
Em abril de 2022, o IPHAN solicitou o envio de subsídios mínimos para a análise formal do projeto, incluindo o levantamento “as built” da cobertura e do madeiramento, a identificação das diferentes épocas da edificação e propostas técnicas para a resolução das patologias. Em julho daquele ano, uma nova reunião apresentou os avanços significativos do projeto, que incorporou as recomendações do órgão, tais como inspeção das cúpulas, prospecções estratigráficas, testes granulométricos das argamassas e detalhamento dos encontros entre a estrutura de madeira e os forros decorados.
A fase de elaboração foi marcada pela transparência e rigor técnico, assegurando que as soluções adotadas respeitassem as características originais do Palácio, ao mesmo tempo em que incorporavam técnicas contemporâneas adequadas para garantir durabilidade e funcionalidade.
O projeto contemplou a remoção das telhas cerâmicas comprometidas, substituição e reforço das estruturas de madeira deterioradas, reposicionamento dos mantos de cobertura e instalação de manta impermeabilizante. Também foram previstas intervenções específicas para a melhoria das calhas, que foram substituídas por peças em cobre, instaladas sobre berços de compensado naval resinado, com o objetivo de facilitar a manutenção e assegurar o adequado escoamento das águas pluviais. Além disso, a implantação de lajes impermeabilizadas em setores estratégicos da cobertura buscou eliminar infiltrações recorrentes e proteger as áreas centrais do prédio.
Em agosto de 2022, o projeto do telhado foi aprovado pelo IPHAN.
3. Execução das Obras
Durante a execução, a obra contou com acompanhamento contínuo de técnicos especializados, garantindo a observância das normas de segurança e patrimoniais. Procedimentos cuidadosos foram adotados, como a documentação fotográfica da remoção das telhas originais, a limpeza e a inspeção para reaproveitamento das peças em bom estado, o tratamento imunizante para o madeiramento novo e antigo e a proteção anticorrosiva para elementos metálicos. A proximidade da cobertura com o forro decorado da plenária exigiu atenção especial, com instalação de cobertura provisória para proteção durante os trabalhos.
As etapas da restauração e adequação do sistema de cobertura do Palácio Amarelo obedeceram ao seguinte procedimento:
- Preparação das proteções nos trechos situados sob os pontos a serem tratados, de forma que não ocorressem infiltrações de água durante o processo;
- Montagem de andaimes e demais aparatos para o devido acesso e a correta manipulação dos materiais;
- Desmontagem dos mantos de cobertura, organizados de modo a proporcionar um ritmo adequado ao processo executivo;
- Transporte das telhas, avaliação da possibilidade de reaproveitamento, limpeza, lavagem e estocagem de todo o material passível de reaproveitamento;
- Desmontagem da estrutura de madeira, recomposição desta com a substituição de elementos deteriorados e remontagem seguindo o novo redimensionamento;
- Montagem das novas calhas utilizando-se berços de compensado naval adequadamente posicionados nas estruturas;
- Verificação do sistema de coleta das águas pluviais e implantação de sistema adicional de dissipação de águas de retorno, formado por extravasores posicionados e dimensionados de forma a evitar retornos destas águas nos forros;
- Montagem das calhas e suas adequadas ligações ao sistema de coleta;
- Remontagem dos telhados e execução dos devidos arremates de cumeeiras, rincões e demais detalhes do sistema de cobertura, preferencialmente utilizando-se telhas passíveis de reaproveitamento, sendo previsto o fornecimento de novas telhas e cumeeiras cerâmicas que obedeceram ao modelo existente.
Todo o processo técnico está devidamente registrado e pode ser acompanhado através do processo de registro nº 01426.000147/2022-85, assegurando o respeito ao patrimônio histórico e cultural durante todas as fases de intervenção.
As obras foram concluídas em maio de 2025, representando um marco significativo na trajetória da Câmara Municipal, demonstrando responsabilidade pública, respeito à história local e sensibilidade com as futuras gerações.
A intervenção foi muito mais que uma simples reforma estrutural: foi um gesto de cuidado com a preservação do legado cultural, assegurando que o Palácio Amarelo continue a ser um símbolo vivo da história política, social e arquitetônica de Petrópolis.
Neste processo conjunto entre a Câmara Municipal e a UERJ, além do diálogo constante com o IPHAN, destaca-se a integração entre a prática acadêmica e a gestão pública da cultura, reafirmando o compromisso com a preservação do patrimônio.
A obra do telhado do Palácio Amarelo não apenas promove a conservação física do edifício, mas também fortalece a memória coletiva da cidade, valorizando os símbolos históricos que compõem a identidade petropolitana.
